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Saturday, February 20, 2010

Ano novo, casa nova

Como muitos já sabem, vai-se a ver e deixei o ghetto. Vou sentir falta de muitas coisas mas agora vivo numa zona bem melhor de Houston (na verdade, vivo aqui na reserva gay, que é a melhor parte da cidade, como toda a gente sabe). Claro que as cenas pitorescas não acabam só por já não viver entre os animais.



o gato. Agora vivo com um gato. O gato tem nome mas como o dono é brasileiro eu nunca percebi se é Janice ou Janis (é uma gata). De qualquer maneira, ela não responde ao seu próprio nome. Como tal, refiro-me sempre a ela como "o gato". O gato odeia-me. Não tolera qualquer tipo de contacto fisico meu, e arranha-me e rosna (tanto quanto os gatos conseguem fazer isso) cada vez que isso acontece. No outro dia acordei às 6 da manha com ela a olhar para mim na minha mesinha de cabeceira. Terror puro. Obviamente, dei um salto e ela fugiu a sete pés. Escusado será dizer que tranquei a porta do meu quarto. Escusado será dizer também que fiquei acordado 1 hora, com ela a arranhar a porta, eu a levantar-me para a enxotar e ela a voltar passado 1 minuto. O gato odeia-me.


o senhorio.O senhorio tem uma idade legal estimada em 60 anos mas claramente é antigo. No outro dia ele telefonou-me para o telemovel e eu atendi com: "olá nome_do_senhorio". Segue-se um enorme silêncio que ele quebra com: "como é que sabias que era eu?". Sharaaaam

Para além disso, o homem é esquisito. Ele tem dois carros para ter sempre um estacionado em casa para "os ladrões" pensarm que há sempre alguém em casa. Deixa sempre luzes acessas pela mesma razão. No outro dia, ele decidiu estacionar de maneira a bloquear os nossos carros de entrar ou sair. "Ele vai sair daqui a pouco e por isso é que estacionou assim" - pensei eu. Passaram umas quantas horas e, no dia seguinte, percebemos que ele nao ia mexer o carro tão cedo. Claramente, o homem queria que a gente fosse falar com ele. "Ele está chateado com alguma coisa" - pensei eu - "provavelmente porque lhe sujei a entrada da garagem com oleo" (ah sim, o foguete prateado desatou a esguichar oleo como uma fartura ao sol - podemos tirar o carro do ghetto mas não o ghetto do carro). Vai-se a ver, o homem estava com medo que a gente lhe batesse no carro quando tirassemos os nossos. Sharaaaam


De resto, a vida do costume. Claro que isto de poder ir a pé a supermercados e tal tem tido um efeito interessante: ando a cozinhar muito mais. A primeira refeição que fizémos por aqui foi carne assada e foi umas das melhores que já comi. E, por exemplo, hoje comemos lagosta. Este sítio é muito mais vivo que o ghetto anterior, como podem ver pela figura. Os pontos no "antes" é tudo mecânicos de carros, bombas de gasolina (ai, que o Turco ficou triste) e igrejas (e mesmo essas poucas). No "depois" a coisa é mais bares, cafés, supermercados, lojas de antiguidades (o que eles chamam de antiguidades aqui - 50 anos ou isso) e lojas de tatuagens (que pronto, convenhamos que pode dar jeito), e outras que tal. Deu uma melhorada, como diriam os nossos ex-compatriotas ultramarinos.




Saturday, June 13, 2009

firepit

Depois de uma semana a agonizar sobre se mudava de casa ou não e acabar por ser vencido pela inércia, decidi aproveitar melhor o sitio onde estou. Porque isto de viver no ghetto tem muitas vantagens. Primeiro, ninguém me chama de pelintra por conduzir um carro com 20 anos e uma doença de pele. E, depois, posso fazer o que muito bem me apetecer no meu quintal. Ora, nessa linha de raciocínio decidi construir um firepit aqui no nosso quintal. E o que é um firepit, perguntam vocês. Um firepit é luxo, é um retorno às origens, é basicamente um buraco no chão com pedras à volta onde se faz fogo. "Mas, ó Tiago, porquê um firepit?" - perguntam as pessoas pequeninas. E eu respondo, "e porque não?".
Claro que tive de pedir autorização aqui ao dono da casa e tentar convencer os coleguinhas aqui de casa que era uma boa ideia. A maior parte deles não quer saber e o Ben, o americano, achou uma ideia espectacular. E ainda bem, porque acho que sem alguém a apoiar isto não tinha saido da planta (que fizémos, para mostrar ao dono da casa que estávamos a falar a sério). Ora aqui segue uma foto reportagem desta obra de engenharia.







































E pronto, é com estes paus que constrói um firepit. Entretanto, esta nossa obra tem feito furor. Já fizémos bifes, espigas de milho, marshmallows (aquelas coisas que se vêem nos filmes), s'mores (essencialmente um marshmallow entre duas bolachas e com um bocado de chocolate lá para o meio - uma abominação), galinha, porco, enfim...
Claro que o grande problema de um firepit é que temos de estar sempre preocupados com lenha. Ora a parte interessante é que as àrvores aqui das redondezas deram todas o badagaio com o furacão. Vai na volta, também comprei um machado! Portanto temos andado a alimentar o firepit com as àrvores que mandamos abaixo. É exercício e fica mais barato que andar a correr a cidade toda à procura de sítios que vendam lenha. As vantagens de se viver no ghetto. Aqui fica o Ben a ensinar o Abhay a cortar lenha (sim, porque o pobre diabo, quando decidiu experimentar o machado, desatou à marretada no tronco como um louco e quase que ia arrancando um pé).

Tuesday, June 10, 2008

Sai o velho, entra o novo

Mais uma vez, cá estou a eu a dar-vos as notícias deste cantinho do mundo, onde os homens mascam tabaco e os mosquitos têm o vírus do Nilo Ocidental (west nile virus).
As notícias mais relevantes são que todos aqueles personagens que viviam cá em casa e que vocês aprenderam a amar foram-se embora. Sim, o tropa e a sua namorada (não) stripper foram viver para outro sitio durante o verão (mas é capaz de voltar em setembro); o Dan, aquele psicopata de Nashville, finalmente estalou e decidiu que não quer continuar a viver nestas condições e mudou-se para outro lado qualquer na cidade; e o BJ, o relações públicas da equipa de basket, vai voltar para Denver, Colorado, porque "Houston é uma cidade feia e eu tenho de viver numa cidade gira" e "as pessoas aqui sao mal-educadas".
Pronto, e assim se foram todos os meus personagens. Entretanto, chegou uma nova fornada de personagens para animar as minhas e as vossas vidas. Apresentam-se:
  • Pavel: o primeiro a chegar. Chegámos a viver uma semana só nós os dois aqui por casa e foi bem pacífico. Claro que ele (como eu o percebo) passou por aquela fase em que estava sempre trancado no quarto e só saía para comer e tal mas tornou-se mais sociável, entretanto. É um psicólogo social, estuda os toxico(in)dependentes e só cá vai estar 4 meses. Tinha um certo talento para fritar coisas e empestar a casa durante umas horas até eu o ensinar a usar a ventilação
  • Abhay: um programador indiano que trabalha para a Chevron e que por vezes cheira um bocado mal. Por outro lado, não cozinha, que era a minha preocupação quando descobri que um indiano vinha para cá. E isto não é racista da minha parte: nos meus tempos de utente dos transportes públicos de Houston, tive o prazer de partilhar assento com muitos indianos (jovens) e todos eles cheiravam a caril. É simpático mas acho que tem um sentido de humor um bocado peculiar e não tem problemas a partilhar a sua vida.
  • Hermann (acho eu ): é um francês que está cá a tirar o curso de engenharia electrotécnica. Já cá está há 6 anos e faz musculação: bebe aqueles batidos de proteínas e anda sempre com camisas de cavas (e por isso é que digo que ele faz musculação).
Portanto, acho que este Herman é o novo tropa e o Abhay é o novo BJ (o PR da equipa de Basket) embora menos efusivo. Mas acho que o checo é o antigo eu e eu sou o novo Dan (o psicopata de Nashville), visto que ele continua a trancar-se fervorosamente no quarto e agora eu açambarco a sala (como o Dan costumava fazer) a ver séries de que eles não gostam (como Dan, a ver NASCAR e basket) e a reclamar por eles não porem a louça na máquina e a ser genericamente passivo-agressivo.
E pronto, novidades contadas vou voltar ao retiro. Tenho grandes coisas para vos mostrar mas preciso de dar um passeio para documentar com fotos. Até lá, beijinhos e abraços e muitas saudades a todos.

Monday, April 21, 2008

Texas Fire Ants!!!

Primeiro que tudo, deixem-me dizer que comprei umas cadeiras bem porreiras para ter no jardim de forma a poder estar a tomar os meus cafés matinais ao ar livre. E, de facto, comecei a passar algum tempo lá fora, para aproveitar enquanto o calor não se torna o inferno que toda a gente agoira. Ora, no nosso quintal, existe uma bela arvore, enorme e morta. Costumava gostar de estar a ver os ramos contra o céu nocturno, quando estava lua cheia. Dava assim uma sensação de filme de terror. Mal sabia eu que a sensação era mais real do que eu pensava...

Estava portanto eu a tomar café lá fora quando reparo que a a casca da arvore parecia estar a mexer-se. Como bom cientista, fui investigar: formigas! "Pronto, formigas", pensei eu e voltei para a minha cadeirinha, para junto do meu café. No entanto, como bom paranóico e hipocondríaco , lembrei-me imediatamente de uma conversa que tinha ouvido sobre o que eles chamam Texas Fire Ants. Parece que são umas formigas que mandam umas dentadas que doem de c******. Claro que a ideia de ser comido vivo por seres minúsculos não me saiu da cabeça. Isto não qualificava bem como hipocondria portanto achei que não fazia mal dar uma espreitadela na internet. Erro, mas desta vez não estou a o Pedro (no Pedro e o lobo, percebem?).

TENHO FORMIGAS COMEDORAS DE HOMENS NO QUINTAL! e agora no caixote do lixo (o que está lá fora), também! A visão horrorosa de ver uma autoestrada de formigas vermelhas a subir o caixote do lixo vai-me perseguir até ao fim dos meus dias. Não se conseguem ver as parecenças entre a foto da esquerda (as formigas no meu caixote) e a da direita (da internet) mas eu estava um bocado borrado e tirei a foto um bocado de raspão. Garanto que são iguais...

Quanto tempo, meus amigos, quanto tempo até elas decidirem variar a dieta? e eu não estou a exagerar (muito): segundo a wikipedia, elas conseguem matar pequenos animais (passaros e assim). Claro que é neste ponto que a hipocondria ataca e passo o tempo a sentir coisinhas a subirem-me as pernas de cada vez que entro em casa. Ainda por cima, as gajas sao duras de roer. São resistentes a montes de coisas e basta uma rainha sobreviver que consegue reconstruir toda a colónia em poucos dias. Medo, meus amigos, medo. Alguém tem um bocadinho de napalm?

Tuesday, February 19, 2008

Montar uma cama à Texana

Fartei-me de dormir numa cama de outrém (andava a dormir num colchão do meu chefe) e decidi comprar uma coisinha própria. Claro que, sendo eu como sou, estava cheio de indecisões e dilemas sobre o que comprar porque em principio vou mudar de casa e depois vai ser complicado para mudar as coisas mas também não quero continuar assim, blah blah blah... O que vale é que a pressão de tomar uma decisão em frente a outros funciona sempre. A mexicana, que é uma colega lá do laboratório, ofereceu-se para me levar ao IKEA, isto porque ela também não me parece que diga que não a uma boa tardada de compras. Lá fomos então e, estando eu sobre a pressão de não parecer um completo idiota sem espinha em frente da rapariga, lá me decidi pelo Grankulla/Massum, que até é uma boa escolha porque não é difícil de transportar e serve ao mesmo tempo como cama e algo onde me possa encostar. Comprámos as coisas e tal e ela veio trazer-me a casa; muito simpática.
Restava-me então a tarefa (até agradável, pensei eu) de montar o bicho, coisa que nunca me passou pela cabeça fosse dar muito trabalho visto até não ser estúpido e confiar cegamente nos meus dotes manuais. Errado! Deixem-me guiar-vos pelo processo de montagem:
passo 1: aparafusar uns parafusos a umas tábuas. Ora, obviamente que nunca me passou pela cabeça 1) esta coisa não vir com um modo de aparafusar ou 2) viver numa casa onde as pessoas não tivessem uma chave de fendas. Ambos foram erros crassos. Claro que eu não deixei as coisas ficarem assim: tudo o que havia na cozinha foi experimentado para tentar aparafusar o raio dos pinocos às tábuas. Eu parecia um macaco a tentar montar um computador ou coisa que o valha até me render às evidências que assim não estava a funcionar. Adiei, portanto, para o dia seguinte. Hoje, consegui desencantar uma chave de fendas no laboratório e voltei à carga. E a coisa parecia bem encaminhada.
passo 2: Pregar uns parafusos de plástico, para unir duas tábuas. Lá está, "tens a chave de fendas mas não tens o martelo" - disse-me eu a mim próprio. "Mas a chave de fendas serve como martelo, é uma questão de força" - respondi-me eu, cheio de confiança. Bastaram umas boas pancadas para perceber que o raio do parafuso não ia a lado nenhum. Pior, já não ia mais para dentro e não queria sair do buraco. Isso resolveu-se apoiando a chave de fendas do outro lado da tabua e mandando-lhe uma boa patada que fez o raio do pinoco saltar como uma rã para dentro de um charco (é assim que se fala no texas).
Não há problema, pensei eu: martelar coisas é um acto bem simples, andamos a fazê-lo desde a idade da pedra. Toca a olhar em volta a ver o que podia usar para marretar aqueles pinocos brancos e eis que ponho a vista em cima de uma das peças não utilizadas. Aha! pensei eu, sou um puto dum génio e toca de brutalizar os pinocos com o pedaço de madeira que, como seria de esperar, ficou no lindo estado que podem ver aqui ao lado.

martelar, acto 2. Obviamente, isto assim não podia ser. Mas, mil macacos me mordam se eu deixo uma tabuita vencer-me. Afinal de contas eu sou um engenheiro, ou pelo menos é o que diz no meu cartão de crédito. Ora, este engenheiro foi furioso lá fora e descobriu o belo pedaço de arvore que vêem na foto. Escusado será dizer que o pedaço de tronco foi completamente pulverizado à primeira marretada (cheia de raiva - bem sentida) que mandei com ele.
Pronto, neste ponto engoli o meu orgulho e fui incomodar os outros ocupantes desta casa à procura do abençoado martelo. Vai-se a ver e até há um martelo na casa, o BJ tem um. A partir daqui, aquilo foi como esmagar formigas. Nunca me senti tão bem a martelar.
Ora, estava eu alegremente a enterrar pinoco atrás de pinoco quando reparo que a um dos sítios onde era suposto espetar pinocos faltam os orifícios! Não, não sou estúpido e me enganei a montar. Sim, todas as outras peças encaixam nos seus devidos sítios e não há mais peças. Na foto, a da esquerda é a boa, a da direita devia ter os mesmos furos que a da esquerda. E pronto, isto foi demais para mim num só dia. Amanhã tenho de ir ao IKEA tentar trocar esta peça. Claro que para isso tenho de chatear alguém que me leve lá e tal... Mas isto não fica assim!

to be continued ...

Sunday, February 10, 2008

Domingos em Houston

Tenho um novo passatempo aos fins de semana: é ver os cowboys a saírem da missa de domingo. Vocês não acreditam nas coisas que se vêem por aqui. Apercebi-me do que andava a perder ao ver este senhor que aqui vêem na foto. Estava eu na fila para o turco (que continua a oferecer-me os cafés e que entretanto anda a tentar descobrir a melhor maneira de eu ir a um centro comercial qualquer que há aqui perto) e vejo este senhor, vestido com um fatinho verde-diarreia e um chapéu de cowboy azul-celeste que fazia conjunto com umas botas texanas e percebi que estava aperder algo de muito bom. Tenho mesmo pena da foto não mostrar bem o chapéu e as botas mas tive de ser discreto, não fosse o senhor não achar piada e ter também uma bela pistola de cowboy a condizer com as botas. Mas vocês percebem a ideia. Por pouco não sacava também o turco e ficavam a conhece-lo.
Descobri também que há um sítio ao pé da universidade que é onde este pessoal todo se junta para comer asinhas de frango fritas depois da celebração dominical. Ainda não consegui lá ir mas deve ser digno de ser visto e parece que sao as melhores asinhas de Hosuton. Para comemorar esta descoberta, aqui vai mais uma contribuição para a secção de dizeres de igreja, desta vez mais a apelar ao sentimento: "que amigo temos em Jesus". Belos domingos por Houston.

Monday, January 28, 2008

finalmente, cowboys

Vinha eu de um dos meus passeios a pé por esta cidade, a amaldiçoar esta cidade ser uma cidade de carros (porque Detroit pode ser a motor city mas isto é claramente a car city) e começo a ouvir a batida. Pensei eu que era mais um carro a bombar. Sim, porque já sei porque é que os americanos falam tão alto: ou estão a ouvir musica em altos berros no carro (mas uma coisa de pôr as latas todas a abanar - o Xavier havia de gostar disto) ou os headphones que usam conseguem-se ouvir do outro lado da rua.
Bom, voltando à questão, começo então a ouvir a batida, e apercebo-me que é anormalmente alto, mesmo para Houston. E vejo então o lindo espectáculo que vêm no video (que não consegui apanhar tão bem porque o estava um bocado longe e tive de correr para vos poder mostrar isto): Um desfile de afro-americanos (que é como se chamam aqui) a cavalo, todos com o seu chapeuzinho à cowboy, ao som de beyoncé ou lá o que é. Mas que texas vem a ser este? apercebi-me mais tarde que esta procissão-de-pretos-a-cavalo-ao-som-de-beyoncé aconteceu no dia do Martin Luther King, o que explica a etnia dos cavalheiros mas e os cavalos? e a beyoncé?


Sunday, January 27, 2008

Os três estarolas que vivem comigo e o outro

Agora que já tive algum contacto com as pessoas que de facto vivem nesta casa, deixem-me descrever um pouco as personagens com quem vivo:
  • Lorenzo - Este é o dono da casa. Em boa verdade, este jovem não vive cá, apesar de todas as indicações em contrário nos seus emails e tal. Parece que vive em Austin (a capital dos concertos ao vivo) e aparece de vez em quando para recolher os cheques da renda. Ainda não o vi mas acho que apareceu este sábado para a recolha mensal. É o responsável por me alugar um quarto sem mobília.

  • Dan - É o roommate com quem tenho tido mais contacto. Lida com patentes e propriedade intelectual para a Rice University e é de Nashville, apesar de ter tirado o curso em Flint, Michigan. Só cá está ha 3-4 meses e, como tal, acho que não tem muitos amigos por aqui, daí ser a pessoa com quem tenho passado mais tempo. Claro que isto de passar mais tempo só quer dizer que estamos os dois em casa muito tempo. Na verdade, as nossas relações são um bocado esquisitas. "olá", "tudo bem?" e lá vou eu para o quarto enquanto ele fica na sala a ver TV. Além de desporto, ele gosta de ver coisas minimamente decentes, como o canal História ou o Discovery. Ás vezes, lá me sento ao pé dele (normalmente quando estou a jantar) e fico a ver o que ele vê, incluindo os seus zappings furiosos durante os intervalos, mas não trocamos lá muitas palavras. No outro dia decidi ir à bomba comprar umas cervejas (com toda a aprovação do turco: "um homem tem de beber, de vez em quando") e oferecer-lhe uma (forçar o bonding masculino). E pronto, aí lá ficámos a conversar um bocado e foi fixe e tal. Hoje, voltámos um bocado ao ritmo normal. Mas pronto, suponho que seja com calma. Acho que ele é timido da maneira como os americanos são timidos: sem o demonstrar, a forçar um falso à-vontade e a tentar parecer distantes e cool com tudo. Mas eu quebro-o. Não trouxe as minha pantufas pés-de-gorila mas hei-de ter outras maneiras de o fazer acreditar que sou completamente louco e aí ele vai ter de dizer alguma coisa.

  • BJ - Não sei de que nomes BJ são iniciais (Bernard John? Bertrand Julian?) mas ele insiste que é assim que se chama. É um afro-americano (como eles dizem por aqui) da Florida e que é relações publicas da equipa de basket da Universidade de Houston. Fala que se desunha, como qualquer RP, e passa os dias a ver desporto na TV ou a falar ao telemóvel. Parece que esteve no Japão num programa de intercâmbio e que gostou tanto que se alistou na Marinha para poder ficar mais uns anos por lá. Acho que ele acha que o Dan é um bocado chato e então tranca-se no quarto montes de tempo a ver filmes, para não estar com ele. É o meu palpite, não sei. Isto porque o Dan às vezes pergunta-me pelo BJ e diz que não sabe onde o BJ foi. Não sei, tirem as vossas conclusões.

  • George - Este personagem é o mais esquivo de todos. Está na marinha e à espera de ordens para ir ou para Itália ou para um sítio qualquer no Médio Oriente. Em paralelo, está a tirar o curso de contabilidade e faz uns biscates como segurança nocturno, daí os horários malucos que ele faz. Curiosamente, é aquele que me pareceu ser mais fixe e o que foi mais simpático comigo: ofereceu-se para ir comigo comprar mobília, se eu precisasse de carro. Claro que isto de passar pela tropa não deixa um gajo na mesma, e nota-se o toque militar no jovem. Ele é assim mais para o brusco (mas de uma maneira sem merdas, diz o que pensa e faz o que quer) e faz um barulhão a andar pela casa. Isso garante-lhe alguns privilégios cá por casa. No outro dia, a gaveta dos talheres apareceu estragada (estragada quer dizer, toda a superfície que tem o puxador foi arrancada) e, quando eu perguntei o que se tinha passado, o Dan diz: "deve ter sido o george - eu amanhã arranjo". Mas ele é simpático: ofereceu-me emprego como segurança e convidou-me para ir a um bar de strip quando nos cruzámos à porta de casa (não,não fui. se bem que ir a um bar de strip com um bando de tropas americanos é um programa que não se recusa muitas vezes, especialmente quando é um tropa a convidar ).
Estão então apresentados ao elenco desta novela texana. Escusam de pedir fotos que eu não tenho assim tanto à-vontade com estes gajos para lhes andar a tirar fotos. E podem também parar de pedir fotos do turco que eu sei lá o que ele pensa se lhe peço uma foto. Em boa verdade, ele até tiraria uma foto porque tem tanta pena de mim. Agora até deixou de me cobrar os cafés.

Thursday, January 24, 2008

O rei leão e o poste dos agrafos

Como vos disse, a vizinhança tem uns recanto bem pitorescos. Aqui vão mais uns cheirinhos do ambiente aqui da zona.
No caminho para o autocarro existe um estabelecimento chamado King Leo's (o rei leo). Com tal nome talvez estivessem à espera de um parque infantil ou uma loja de produtos africanos. Foi com muita surpresa que descobri, ao passar assim mais à noitinha por lá, que se prometiam shows e danças à porta. Claramente, nenhuma das meninas que lá trabalha poderia (à luz do contrato de arrendamento que assinei que proíbe explicitamente pessoas de má fama) pernoitar lá por casa. O Rei Leo é portanto uma casa de strip, como se pode ver pelo aspecto da coisa quando está a bombar. Um gajo nunca se engana quando vê os neons rosa e o sinal de proibidas armas à porta.

Outro belo sítio onde passo grande parte do meu tempo (isto porque os autocarros em Houston têm a sua própria noção de tempo e horas) é a paragem do 30 - a tal bela carreira. Claramente não sou o único a ficar enfurecido pela falta de pontualidade (é que nem sequer se atrasam - eles passam mesmo quando lhes apetece) do sistema de transportes públicos aqui do burgo. Alguém, que claramente também era forçado a passar ali horas infinitas da sua vida e tinha acesso a uma pistola de agrafos, decidiu aproveitar o seu tempo para praticar a pontaria com a pistola de agrafos, para os seus duelos de agrafadores no escritório. A cultura cowboy deve chegar a esse ponto.

Tuesday, January 22, 2008

O turco da bomba

Deixem-me falar-vos um pouco mais sobre a vizinhança aqui da Griggs Road. Como já vos disse, esta zona é maioritariamente composta por casas que não resistiriam ao Katrina e lojas de automóveis, pneus e outras coisas associadas aos arredores distantes de uma cidade (apesar disto se encontrar quase no centro da cidade). No entanto, isto não deixa de ter os seus cantinhos mais pitorescos.
Ao fundo da rua existe uma bomba da Shell que tem sido uma parte importante da minha vida. É lá que compro o café que bebo no caminho para o autocarro (o 30 - grande carreira, sou o único branco que o apanha) e grande parte das minhas refeições. Neste oásis, trabalha um turco que está lá à tarde e noite. Este turco simpatizou comigo quando topou que eu não era de lá (logo a seguir a responder-me que não, não temos pizzas congeladas mas olha, acho que temos umas sandes). A primeira coisa que me disse foi "sabes de onde eu sou? da turquia..." e estas reticências quase me trouxeram lágrimas aos olhos (nesses dias eu andava um bocadinho emocional).
O turco claramente reparou nesse brilhozinho nos meus olhos e reconheceu ali um camarada de emigração e, como camarada mais experiente nessas lides, sente-se um bocadinho responsável por mim. Eu tentei explicar-lhe o que fazia ali mas a palavra "postdoc" não batia certo na cabeça dele e ficámos por estar ali para estudar. Ele trata-me sempre por "meu amigo" e olha sempre para mim com aqueles olhos de quem tem imensa pena de mim, porque vê-me ali todos os dias a comprar o jantar, sabe que não tenho carro e, tenho a certeza, imagina-me numa vida mesmo muito precária. Está sempre a dizer para eu ter muito cuidado por ali e que aqui toda a gente tem carro porque "isto não é como na europa".
Eu cá gosto muito do turco. Hoje perguntei-lhe se eles ali vendiam guarda-chuvas (porque raios, estou farto de levar com chuva nos cornos) e ele disse que não mas ficou meia-hora a pensar onde se venderiam por aquelas bandas e finalmente acabou por dizer que ia perguntar ao patrão e que amanhã me dizia. Só tenho pena de não ter uma foto do turco para vos mostrar, mas é um bocado chato pedir-lhe para tirar uma foto.

Sunday, January 20, 2008

Benvindos ao Texas

Olá a todos benvindos ao relato heróico de um português no Texas! Do que já vi por aqui, isto só pode ser divertido.
Como a maior parte de vocês sabe, o meu chefe foi-me buscar ao aeroporto e trouxe-me a casa. O processo de entrar em casa foi engraçado, com um cadeado preso à torneira da água com um código, e que lá dentro tinha as minhas chaves de casa. Lá entro na casa, directamente para sala que era exactamente como nas fotos que me tinham mandado, sigo todas as instruções para chegar ao meu quarto - o piso passa de soalho para alcatifa, como previsto - e chego ao meu quarto que encontro completamente desprovido de mobilia à excepção de um caixote do lixo vazio e uma garrafinha de neutralizador de odores. "ora bem, assim começa a minha aventura", pensei eu. Como sou um menino tão prevenido, já vinha com um saco-cama na mala. O meu chefe arranjou-me um colchão e mais tarde um edredon e é assim que eu vivo desde então.

O meu quarto neste momento parece-se mais ou menos com esta imagem. Aquele cantinho azul escuro do lado esquerdo é o tal caixote do lixo que está estacionado no meu quarto.
A casa tem aquecimento central e claramente os meus roommates sofrem de má circulação visto que está sempre ao rubro. Uma estufa que não se pode. Estes, até são gajos porreiros apesar de eu fugir um bocado deles e não me apetecer tanto fazer sala. Um chama-se BJ e o outro Dan e ainda não vi o dono da casa, que dá pelo nome de Lorenzo apesar de insistir em chamar-se Xavier. Tenho internet wireless em casa, o que tem sido a minha boia de salvação nestes últimos tempos.
Entretanto, percebi que onde vive por aqui é em Montrose. Uma espécie de Bairro Alto, disseram eles mas honestamente essas pessoas estão muito mal habituadas. Montrose é muito mais limpinho, muito mais arranjado, é composta de casas de pedra vermelha e não de predios antigos semi-destruidos como o verdadeiro. As poucas coisas que isto tem em comum com o velho Bairro é a proliferação de lojas de tatoos (e isto é um rumor - eu não vi nenhuma) e a quantidade de gays que lá vive (isto é verdade - eu vi muitos). Mas parece de facto um belo sítio para se viver.

A minha fascinação por este sítio vem do sítio onde vivo (a imagem ao lado). Apesar da casa ser mesmo boa o mesmo não se pode dizer da vizinhança. Parece que esta zona era uma zona industrial que foi sendo colonizada por zonas de habitação. Claro que esse processo ainda não acabou ou não fosse as traseiras da nossa casa ter vista para um jardim de contentores de qualquer coisa liquida que ainda não descobri o que, e o facto de o tipo de loja mais comum por aqui serem oficinas de automóveis e camiões. E em geral, as próprias habitações parecem um bocado degradadas, também. Existe por aqui uma bomba de gasolina onde tenho comprado as minhas refeições e umas empresas de camionagem :). Acho que algures perto existe um supermercado a sério mas ainda não fui investigar isso.
Tenho a dizer que o meu sentido de orientação está a sofrer muito com esta cidade. Sempre que saio de casa tenho uma terrível tendência para virar à direita quando a direcção a tomar é a esquerda. Está tudo trocado na minha cabeça...
Mais notícias virão em breve. Até lá um beijinho para todos. As saudades de tudo e todos apertam.